
Casa do futuro: tecnologia, sustentabilidade e novas formas de morar
Depois de entender como nossos hábitos estão transformando a maneira de morar, a conversa avança para o que vem pela frente.
Na segunda parte da entrevista com Ana Rita Gomes, arquiteta, investigadora e fundadora do CURO Architecture Atelier, falamos sobre sustentabilidade, tecnologia, influência das redes sociais e as transformações que podem definir a casa do futuro.
Como a tecnologia será integrada aos ambientes? Qual espaço da casa tende a mudar mais? E como criar projetos capazes de acompanhar as pessoas ao longo do tempo?
Conheça o trabalho do CURO: @curo.architectureatelier
Sustentabilidade e tecnologia na casa do futuro
A sustentabilidade já aparece espontaneamente nas demandas dos clientes ou ainda precisa partir mais do arquiteto?
Já existe uma consciência maior, mas ainda há um papel muito importante do arquiteto. Muitas vezes a sustentabilidade é entendida apenas como tecnologia, equipamentos ou materiais. Mas começa muito antes disso, surge na própria concepção do projeto: na orientação, na luz, na ventilação, na relação com o lugar, na escolha daquilo que é realmente necessário. Interessa-me a ideia de que a sustentabilidade não tem necessariamente de aparecer como uma camada acrescentada ao projeto. Podendo já estar integrado na própria lógica que dá origem à arquitetura.
A tecnologia está ficando mais visível dentro das casas ou a tendência é que ela funcione quase sem ser percebida?
O futuro será cada vez mais o da tecnologia que se sente sem se ver. Quando uma tecnologia é realmente bem integrada, deixa de ser protagonista. Está presente na forma de uma casa controlada a luz, a temperatura, a segurança ou o consumo, mas não interfere necessariamente na experiência do espaço. Para mim, a tecnologia deve servir a arquitetura e não competir com ela.
Qual será o espaço mais transformado da casa?
Qual espaço da casa você acredita que vai passar pela maior transformação nos próximos anos?
A cozinha vai continuar a transformar-se, mas talvez não apenas a cozinha enquanto divisão. O espaço que vai mudar mais é o espaço intermediário que surge entre aquilo que hoje chamamos sala, cozinha, trabalho e lazer. Vamos precisar de espaços capazes de mudar de função ao longo do dia. Não necessariamente espaços maiores, mas mais inteligentes na forma como se relacionam. E, creio, que também, vamos voltar a valorizar pequenos espaços de retiro. Um lugar para ler, trabalhar, estar sozinho ou simplesmente não fazer nada. A casa precisa tanto de lugares de encontro como de lugares de recolhimento.
Arquitetura na era do Instagram e do Pinterest
Você acredita que estamos caminhando para casas cada vez mais personalizadas ou existe o risco de todos os projetos começarem a parecer iguais por influência das redes sociais?
As duas coisas podem acontecer ao mesmo tempo. Nunca tivemos tanta possibilidade de conhecer referências, arquiteturas e diferentes formas de habitar. Isso pode enriquecer muito um projeto. Mas existe, também, o risco de começarmos a confundir inspiração com reprodução. Para mim, personalizar uma casa não é escolher uma imagem diferente com base numa referência do Pinterest. É perceber quem vai viver ali e transformar essa informação no espaço. A arquitetura nasce dessa interpretação. Não se trata de reproduzir uma forma, mas de compreender a lógica dessa forma.
Instagram e Pinterest ajudaram ou atrapalharam o trabalho do arquiteto?
Ajudam e atrapalham. Depende da forma como são utilizados. São ferramentas extraordinárias para comunicar, descobrir referências e perceber aquilo que as pessoas estão a procurar. Mas podem tornar-se limitadas quando o cliente chega ao projeto a acreditar que sabe exatamente como uma casa deve ser. Às vezes, nosso trabalho passa justamente por desconstruir uma imagem para descobrir aquilo que uma pessoa realmente procura essa imagem.
Existe algum pedido que você recebe dos clientes e que normalmente precisa desconstruir ou adaptar?
Talvez o pedido que mais vezes precisa de ser desconstruído seja uma ideia de que tudo tem de ser maximizado. Mais arrumação, mais área, mais equipamentos, mais coisas. E, às vezes, o que uma pessoa realmente precisa é exatamente o contrário: retirar, organizar, criar configurações. Uma casa não precisa mostrar tudo ao mesmo tempo. Há uma certa riqueza naquilo que se revela gradualmente, na ideia de que os espaços se descobrem, nas transições entre um lugar e o outro.
O que faz uma casa envelhecer bem?
O que faz um projeto envelhecer bem?
É uma capacidade que não depende apenas do tempo. Um projeto envelhece bem quando tem uma ideia forte por trás, mas não está preso a uma determinada moda. Envelhece lindamente quando a relação entre os espaços, a luz, a matéria e a estrutura continuam a fazer sentido mesmo quando a forma de viver se altera.
Interessa-me a capacidade de resistência e adaptabilidade. Um projeto deve conseguir continuar a ser habitado sem precisar estar permanentemente atualizado decorativamente.
Como será a casa do futuro?
Se você pudesse antecipar como será a casa brasileira daqui a dez anos, o que provavelmente encontraremos nela?
Como arquiteta portuguesa não posso dizer como será a arquitetura brasileira especificamente. Mas globalmente acredito que encontraremos casas mais adaptáveis e, ao mesmo tempo, mais pessoais. Provavelmente haverá mais tecnologia, mas espero que seja cada vez menos visível. Haverá também uma maior preocupação com o conforto, a sustentabilidade e a relação com a natureza. Mas aquilo que mais gostaria de encontrar é uma casa pensada a partir das pessoas e não das tendências. Uma casa capaz de mudar porque as pessoas mudam. No fundo, acredito que uma casa do futuro não será necessariamente maior, mais tecnológica ou mais sofisticada. Será uma casa que saberá escutar melhor quem a habita.
Uma casa preparada para acompanhar as pessoas
Para Ana Rita Gomes, a casa do futuro não precisa necessariamente ser maior, mais tecnológica ou mais sofisticada.
O caminho está em criar espaços mais adaptáveis, confortáveis e pessoais, capazes de acompanhar as transformações da vida e responder melhor às necessidades de quem os habita.
Uma visão em que arquitetura, tecnologia e sustentabilidade deixam de ser elementos isolados e passam a fazer parte de uma mesma experiência: uma casa pensada para as pessoas, e não apenas para as tendências.

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