Como as novas formas de morar estão transformando a arquitetura

A forma de morar está mudando, e com ela surgem novas maneiras de pensar os espaços, o conforto e a própria experiência dentro de casa.

Na primeira parte desta entrevista, conversamos com Ana Rita Gomes, arquiteta, investigadora e fundadora do CURO Architecture Atelier, sobre as mudanças no comportamento dentro de casa, a busca por espaços mais flexíveis, privacidade, funcionalidade e o novo significado de luxo na arquitetura residencial.

Com formação entre Portugal e Itália, Ana Rita compartilha sua visão sobre como as novas formas de viver estão transformando os projetos e aquilo que esperamos de uma casa.

Conheça o trabalho do CURO: @curo.architectureatelier

O que mudou na forma como queremos morar?

Quando você olha para os projetos de hoje e compara com os de dez anos atrás, qual é a maior mudança na forma como as pessoas querem morar?

Houve uma mudança de expectativa sobre o que significa o ato de habitar. Há dez anos, muitas vezes pensou-se a casa a partir das divisões e das suas funções. Hoje sinto que existe uma preocupação maior com a experiência: como se vive aquele espaço, como se circula, onde se está sozinho, onde se está em família, como incide a luz, como a casa se relaciona com o exterior.

A casa deixou de ser apenas um conjunto de espaços com determinadas funções e passou a ser muito mais uma extensão da própria forma de viver. E isso obriga-nos, enquanto arquitetos, a ouvir mais. Antes do desenho há sempre uma história, uma intenção e uma expectativa que temos de saber interpretar.

O que os clientes estão buscando hoje que praticamente não aparecia nos briefings de alguns anos atrás?

Há uma procura muito maior por espaços que permitam diferentes formas de estar. Não necessariamente mais espaços, mas espaços mais flexíveis. O trabalho, o descanso, o exercício, o convívio, o estar sozinho, tudo isso passou a acontecer principalmente dentro de casa. E há, também, uma procura crescente por aquilo que eu chamava de bem-estar espacial: luz natural, relação com a natureza, silêncio, materiais que transmitem conforto. No fundo, os clientes estão menos preocupados em transmitir “quero esta divisão” e mais preocupados em dizer “quero sentir isto quando estou em casa”.

Hoje as pessoas querem casas maiores ou casas que funcionem melhor?

Cada vez mais, as pessoas percebem que quantidade não significa qualidade. Existe uma espécie de equívoco quando pensamos que qualidade significa necessariamente mais metros quadrados. Na minha perspectiva, uma casa pequena pode conter uma enorme complexidade e uma casa grande pode ser espacialmente muito pobre. A questão é perceber o que cada metro quadrado pode oferecer.

Privacidade, integração e novas formas de viver a casa

Você sente que as pessoas estão projetando uma casa mais para receber ou mais para viver momentos particulares?

Procuram um equilíbrio entre as duas coisas. Durante algum tempo existiu uma grande valorização da casa como lugar de representação, de mostrar aos outros. Hoje sinto que existe uma necessidade maior de uma casa responder aos momentos mais privados. A casa precisa de abrigar tanto uma mesa cheia como um momento absolutamente individual. E essa possibilidade de alternância é, para mim, uma das coisas mais interessantes da arquitetura doméstica. Uma casa não pode estar sempre a acontecer, deve também saber guardar silêncio.

Depois de tantos ambientes integrados, você percebe algum movimento de volta para espaços mais reservados?

Sim, começamos a perceber que a integração total também tem limites, ou seja, os espaços abertos devem ser calibrados. O ‘espaço aberto’ foi uma resposta forte para determinadas formas de viver, mas hoje percebemos que uma casa precisa também de diferentes graus de intimidação. Nem todos os momentos são partilhados e nem todas as atividades precisam de acontecer no mesmo espaço. Interessa-me esta ideia de casa como um pequeno arquipélago: espaços que têm autonomia, mas que pertencem a um conjunto. A distância entre eles não significa necessariamente separação. Pode ser precisamente aquilo que permite estabelecer as relações entre si.

Quanto a rotina de trabalho, alimentação e lazer passou a influenciar a arquitetura residencial?

Imenso. A casa tornou-se um local híbrido. O trabalho trouxe uma nova exigência de concentração e privacidade, mas também alterou a forma como utilizamos os espaços comuns. A cozinha, por exemplo, deixou muitas vezes de ser apenas um espaço de serviço e passou a ser um centro de permanência e convivência frequente. O mesmo acontece com o lazer. A casa hoje tem de acolher uma maior diversidade de atividades. E isso, leva-nos a pensar menos em espaços com uma única função e mais em espaços capazes de acompanhar diferentes momentos do dia.

O novo significado de luxo dentro de casa

O conceito de “casa dos sonhos” mudou? O que hoje representa luxo dentro de uma residência?

O conceito de luxo mudou bastante. Durante muito tempo esteve associado à dimensão, à quantidade ou à exclusividade dos materiais. Hoje o luxo pode ser ter tempo, silêncio, privacidade, luz, uma relação com um jardim ou simplesmente um espaço onde conseguimos estar realmente presentes. É interessante porque não implica ter uma casa maior. Às vezes, pelo contrário, implica uma casa mais contida, em que cada espaço tem uma razão de existir. O luxo verdadeiro surge na qualidade da experiência e não na quantidade de coisas.

Quando a estética entra em conflito com a vida real

Existe alguma tendência muito bonita visualmente, mas pouco funcional na vida real?

Há soluções que funcionam muito bem numa fotografia, mas que podem não funcionar tão bem quando entram no dia a dia: materiais muito delicados, espaços abertos depurados, cozinhas pensadas para parecer cozinhas, mas não necessariamente para cozinhar, ou ambientes em que tudo é tão controlado que quase não há espaço para a vida acontecer. A arquitetura doméstica tem de aceitar alguma imprevisibilidade. Uma casa não é uma fotografia. É algo que se transforma todos os dias. Não sou fã do minimalismo levado ao exagero. A casa serve para viver.

Como um arquiteto separa uma tendência passageira de uma mudança de comportamento que veio para ficar?

Uma tendência normalmente começa pela aparência. Uma mudança de comportamento começa pela necessidade. Quando percebemos que uma determinada solução continua a fazer sentido mesmo quando mudamos os materiais, os núcleos ou a linguagem, provavelmente apresentaremos algo mais profundo. Por isso, tento não partir de uma imagem, mas começo pela pergunta: porque é que isto está a acontecer? Se conseguirmos compreender o princípio que está por trás da mudança, conseguimos entender melhor se estamos perante uma moda ou uma transformação no modo de habitar.

Uma casa pensada para a vida real

As mudanças na arquitetura residencial mostram que morar bem deixou de estar relacionado apenas ao tamanho da casa ou à aparência dos ambientes.

Flexibilidade, privacidade, conforto e espaços capazes de acompanhar diferentes momentos da rotina passam a ganhar cada vez mais importância.

Mas a transformação da casa não termina no comportamento.

Na Parte 2 desta entrevista, Ana Rita Gomes fala sobre sustentabilidade, tecnologia, influência das redes sociais e sobre como essas mudanças podem definir a casa do futuro.

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